Afinal, o que é parto Humanizado?

Disponíveis na internet e compartilhados repetidamente nas redes sociais, lá estão os vídeos de partos acontecendo com luz baixa, músicas agradáveis, gestante na banheira. Partos em hospitais que mais parecem hotéis contrastam partos de mulheres no mar, no mato, no pátio de casa.

Bebês nascendo pela vagina de suas mães. Parto Humanizado é a mesma coisa que Parto Normal? Não. Todo o parto em que o bebê nasce pela vagina é considerado um parto normal.

Se for cesariana que dizer que não foi humanizado? Não. Cesarianas com indicações reais, ou seja, onde os benefícios superam os riscos, e feitas de forma respeitosa, gentil e segura para mãe e bebê, são humanizadas.

Toda essa mistura de relatos e cenários tem causado confusão - tanto para as mulheres grávidas quanto dentro das equipes e instituições que prestam atendimento ao parto.

A Humanização do Parto e Nascimento é um movimento muito mais profundo e que vai além de práticas aparentemente gentis e da via de expulsão do bebê.

O Parto Humanizado surgiu diante do excesso de medicalização, intervenções desnecessárias e prejudiciais às mulheres e aos bebês, com o objetivo de readequar o atendimento ao parto e ao recém nascido.

Robbie Davis-Floyd, antropóloga, cientista e ativista pelo parto Humanizado explica que “Existem dois tipos de humanismo: o que eu chamo de humanismo superficial, no qual o quarto é bonito e a mãe é tratada de maneira amável, mas a taxa de intervenções não diminui, e o que eu chamo de humanismo profundo no qual a profunda fisiologia do nascimento é honrada”.

O Parto Humanizado é sustentado por três pilares: Protagonismo e Autonomia da mulher; Assistência Multiprofissional e Práticas Baseadas em Evidências Científicas. Quando um destes pilares é deixado de fora, não estamos falando de Parto Humanizado.

O Protagonismo Feminino recoloca a mulher no centro do evento que é o parto, lugar de onde ela nunca deveria ter sido retirada. Com a transição dos partos do ambiente domiciliar para o hospital e a escalada crescente de intervenções tecnológicas e medicamentosas no parto, o centro deste evento foi ocupado pela figura do médico obstetra.

Um parto só é humanizado quando a mulher que está parindo é o sujeito principal da cena pois é no corpo dela que aconteceram as mudanças da gestação, é no corpo dela que acontece o parto. Quem faz o parto não é o obstetra, nem a doula, nem a parteira - quem faz o parto é a mulher que está parindo. Uma gestante tem direito à informação de qualidade, a ser ouvida, respeitada e tratada com dignidade. Mulheres são seres autônomos, não estão sob tutela do sistema de saúde e possuem capacidade de compartilhar a responsabilidade e as decisões sobre o seu parto com os profissionais de saúde.

A Assistência Multiprofissional fala da inserção de profissionais com diferentes olhares e serviços no cenário da assistência obstétrica e neonatal. Um Parto Humanizado é um parto onde se presta assistência integral à mulher, o que abrange o âmbito fisiológico, psicológico, afetivo e espiritual. Neste tipo de assistência há lugar para obstetras, enfermeiras, parteiras, doulas, psicólogos, fisioterapeutas, entre outros.

As Condutas e práticas Baseadas em Evidências dizem respeito à adequação e o respaldo das condutas obstétricas e neonatais em evidências científicas de qualidade. Atualmente, muitas práticas e protocolos de atenção ao parto estão defasados e colocam a integridade física e emocional das mulheres e dos bebês em risco.

O uso rotineiro da posição ginecológica no parto, puxos dirigidos (quando os profissionais dirigem sobre quando e como a mulher deve empurrar o bebê), episiotomia (corte no períneo), aspiração rotineira das vias aéreas do recém nascido, clampeamento imediato do cordão umbilical e as cesarianas feitas sem indicações reais são alguns exemplos de práticas comprovadamente ineficazes e que colocam mulheres e bebês em risco.

Clarificados e respeitados estes três pilares é possível compreender que um Parto Humanizado pode acontecer em casa ou no hospital, com música ou sem, na banheira ou fora dela, com analgesia ou não. Um Parto Humanizado pode ser inclusive uma cesariana, desde que bem indicada e conduzida com respeito à mãe e ao bebê.

Parto Humanizado é uma nova forma de pensar o parir e o nascer, uma nova forma de olhar para as mulheres e seus corpos, uma nova forma de receber cada bebê que chega ao mundo. Parto Humanizado é seguro, respeitoso, digno e gentil. Parto Humanizado é um direito de todas e todos.

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