Como funciona a memória?


A memória tem tudo a ver com associações, não se tratando apenas de um “arquivo de memórias”. O cérebro processa algo no momento presente - uma ideia, um sentimento, um cheiro - e relaciona essa experiência com experiências parecidas do passado. Dessa forma essas experiências anteriores influenciam o modo como compreendemos o que vemos ou sentimos. Logo a memória é a forma como um evento do passado nos influencia no futuro.

Um exemplo: Se uma única vez deixamos o nosso filho assistir desenho na hora do almoço, o que ele irá pedir sempre na hora do almoço? O desenho. E porque isso acontece? Neurocientistas dizem que “neurônios que disparam juntos se ligam juntos”. Então toda vez que passamos por uma experiência os nossos neurônios “disparam” sinais elétricos, que se ligam a neurônios de outra experiência. Então uma experiência faz certos neurônios dispararem os quais podem se ligar a neurônios de outra experiência. Sendo assim, toda vez que passamos pela primeira experiência (o almoço) nosso cérebro se conecta com a segunda (o desenho). O nosso cérebro se prepara constantemente para o futuro baseado com o que aconteceu no passado. Essas memorias moldam nossas percepções e nos fazem prever o que acontecerá a seguir. Isso tudo por meio de associações.

Além disso nossa memória não é uma reprodução exata dos eventos do passado. Sempre que nós resgatamos uma memória, nós a alteramos. O que recordamos pode ser exatamente o que aconteceu, mas o simples fato de relembrar a experiência nós já a modificamos. Cientificamente a recuperação da memória ativa um conjunto neural parecido, mas não idêntico. Dessa forma as memorias são distorcidas – às vezes pouco, às vezes muito - mas nunca iguais, embora a gente ache que sim. Nosso estado de espirito quando a memória foi criada e o estado de espirito quando a recordamos influenciam e modificam essa memória. Sendo assim a história que contamos é menos história e muito mais uma ficção histórica. Dessa forma memórias recuperadas são por definição vulneráveis a distorção (e não fotocópias precisas e detalhadas do nosso passado).

Nós temos dois tipos de memória que se entrelaçam e trabalham juntas, a memória explícita e a implícita. A que nos faz trocar uma fralda, por exemplo, sem saber que estamos lembrando, é a implícita. E a que nos faz recordar desse aprendizado é a explícita. Normalmente quando pensamos em memória falamos da explícita que é uma recordação consciente de uma memória do passado. Porém nos primeiros 18 meses de vida, codificamos apenas a implícita. Ou seja, um bebê codifica cheiros, sabores, sons e sensações. E o que é importante compreender – principalmente em relação aos medos e frustrações dos pequenos - é que ela nos faz formar expectativas sobre a forma como o mundo funciona com base em nossas experiências anteriores. Um exemplo: Se você toda vez que chega do trabalho, dá um abraço no seu filho. Ele entenderá sua chegada com afeto e conexão. E isso ocorrerá sempre que você chegar, ele já estará esperando o abraço e irá esticar os bracinhos. Nesse caso a memória implícita cria a “preparação” e o cérebro apronta-se para reagir de determinada maneira. Em um outro exemplo, se a criança é criticada por não tocar bem violão, ela poderá criar um modelo mental de que não gosta ou não é uma pessoa musical. E o que isso nos ajuda em quanto pais? Se por algum motivo, nossos filhos parecem reagir de forma insensata, temos que considerar que talvez uma memória implícita tenha criado um modelo mental e que nós pais precisamos ajudá-los a explorar.

E de que forma podemos ajudar? Podemos tornar as memórias implícitas em explicitas, e repletas de significado, para que elas não tenham poder de forma inconsciente sobre aquele medo ou frustração.

É nessa transformação de implícita para explícita que o verdadeiro poder da memória integradora traz percepção, compreensão e até mesmo cura. Entende agora, porque a importância de estudar para ser pai? Vamos estudar juntos? Por Fernanda Salles

Fonte: "O cérebro da criança"

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