Parto Domiciliar é só para a Gisele Bündchen?

No Brasil, a maior parte dos nascimentos ainda acontece nos hospitais, apesar de já contarmos com algumas casas de parto e também com equipes de partos domiciliares. Cada local apresenta particularidades de estrutura e possibilidades que irão atrair as famílias de acordo com a experiência que desejam ter.

Pelo alto nível de contágio e a lotação dos hospitais, a epidemia mundial do COVID-19 reacendeu a discussão sobre os partos domiciliares. Famílias que já planejavam receber seus bebês fora do ambiente hospitalar, estão agora mais certas dessa escolha e famílias que não consideravam essa possibilidade, começam agora a pesquisar sobre as opções disponíveis.

O Parto Domiciliar Planejado (PDP), como todas as decisões que envolvem a chegada de um bebê, deve ser tomada com estudo a partir de informações de qualidade, reflexão e responsabilidade pessoal e familiar. Como doula, parte do meu trabalho é justamente facilitar o acesso à essas informações e auxiliar mulheres e casais no planejamento da chegadas dos seus bebês.

Estudos recentes mostram que, quanto aos desfechos maternos:

Mulheres que deram à luz em casa tiveram uma menor taxa de intervenções como episiotomia, analgesia, uso de ocitocina, operação cesariana e parto instrumental (fórceps e vácuo-extrator); apresentaram menos lacerações do períneo; menor risco de morbidade materna grave, hemorragia pós-parto e remoção placentária. Além disso, mulheres e famílias que receberam seus bebês em casa demonstram altos índices de satisfação com a experiência.

Quanto aos desfechos neonatais:

Estudos apontam que o parto domiciliar não está associado a maior risco de mortalidade nem de morbidade perinatal e de admissão de recém-nascidos (RNs) em Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN). Além disso, nos partos domiciliares há maior respeito à Hora de Ouro - primeira hora após o nascimento, fundamental para a adaptação do bebê ao mundo externo, o estabelecimento da amamentação e o vínculo entre mãe/pai e bebê. Cabe salientar que, infelizmente, mesmo com a melhor assistência, estatísticas apontam que 15-18 em cada 10.000 RN irão morrer, mesmo em países desenvolvido, não havendo diferença significativa nessa mortalidade de acordo com o local de parto.

Importante clarificar que os desfechos positivos dos PDP’s estão associados, obrigatoriamente, ao respeito às normas de segurança, que são:

- Gestação de baixo risco ou risco habitual;

- Acompanhamento pré-natal;

- Equipe técnica capacitada com duas pessoas presentes (enfermeiras, obstetrizes ou médicas). Cabe lembrar que no Brasil, alguns estados não permitem que médicos acompanhem partos no domicílio;

- Material completo para assistência do parto e possíveis emergências obstétricas e neonatais;

- Plano de transferência organizado com hospital a no máximo 30 minutos de casa com plantonista 24hs de obstetrícia, pediatria e anestesia;

- Avaliação contínua de risco durante todo o processo;

Apesar de o domicílio ser um local de nascimento apoiado pela Organização Mundial de Saúde e sustentado como seguro pelos estudos recentes, alguns mitos ainda rondam a questão. É comum, por exemplo, pensar que apenas pessoas muito ricas poderão pagar a estrutura fundamental para tornar o domicílio seguro para o parto.

A realidade é que não é necessária uma ambulância disponível na porta de casa e nem reformas especiais na residência. Respeitando regras básicas de higiene e as orientações de segurança citadas acima é possível receber o seu bebê em casa. Ainda, o valor de uma equipe de parto domiciliar é similar aos valores cobrados por equipes obstétricas que atendem partos hospitalares e, muitas vezes, pode ser parcelado.

Por fim, o que deve guiar a escolha por um PDP, além da consciência e responsabilidade assumidas pela família, é o desejo genuíno da mulher de parir seu bebê em casa e que este seja verdadeiramente o local onde esta se sente mais segura.

Sempre avalie com paciência, atenção e consciência as opções disponíveis na sua região e que fazem sentido para a sua família. Vale pesquisar por materiais de qualidade, fazer consultorias com doulas e educadoras perinatais, frequentar rodas maternas e de preparação para o parto, fazer consultas com equipes de parto domiciliar e conversar com mulheres que passaram pela experiência de parir em casa.

**Gestantes contaminadas por COVID-19 estão fora do grupo de risco habitual e portanto, não podem parir em casa. Além disso, se outras pessoas presentes na casa apresentam sintomas de COVID-19, o parto não pode ser realizado neste local. Da mesma forma, profissionais com sintomas também não estão autorizados a acompanhar o parto.

Texto por: Caroline Rosa - Doula, Psicóloga, Educadora Parental

Referências Bibliográficas:

Parto domiciliar planejado: resultados maternos e neonatais

http://www.scielo.mec.pt/pdf/ref/vserIIIn2/serIIIn2a09.pdf

Parto Domiciliar: direito reprodutivo e evidências

http://estudamelania.blogspot.com/

World Health Organization (WHO). Maternal and Newborn Health/Safe Motherhood Unit of the World Health Organization

http://whqlibdoc.who.int/hq/1996/WHO_FRH_MSM_96.24.pdf

7 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Se fossemos definir a empatia, poderíamos dizer que é a habilidade socioemocional de se colocar no lugar do outro, sentir como ele. Uma expressão bem conhecida do inglês para exemplifica-la é o “walk