Você sente raiva?


Quero compartilhar duas lições que aprendi sobre fortes emoções negativas por meio da leitura e estudo sobre disciplina positiva. Falo de fortes emoções negativas como raiva e frustração, que às vezes se expressam até mesmo de maneira destrutiva, machucando não somente emocionalmente, mas mentalmente e fisicamente. Por muito tempo essas emoções eram um tema desafiador pra mim. Eu não queria sentir raiva pois achava inapropriado. Por um lado, eu me sentia totalmente despreparada quando meus filhos expressavam raiva por algo ou até por mim. Por outro lado, eu também sentia essa raiva nesses momentos. Eu mal conseguia lidar com a minha emoção negativa, que diria com a do meu filho. Estas duas lições que quero dividir a seguir foram divisores de água pra mim e fizeram com que eu mudasse minha forma de lidar a raiva, seja dentro de mim como em meus filhos.

A primeira lição que a disciplina positiva me ensinou é que para aprender a lidar com a raiva é necessário que nós pais não tenhamos medo destes fortes sentimentos negativos. É comum que achemos que sentimentos de raiva não devem ser permitidos em crianças, e nem mesmo em nós. Dizemos que é “errado sentir raiva”. Quando ela surge sentimos a súbita necessidade de controlar esse sentimento em nossos filhos. No maravilhoso livro das autoras Adele Faber e Elaine Mazlish e em tantos outros sobre disciplina positiva fica claro que todo sentimento deve ser recebido e aceito, seja qual ele for. Quando reprimimos sentimentos não estamos cancelando-os, mas estamos escondendo-os debaixo do tapete. O sentimento não sumiu, ele está momentaneamente camuflado e certamente reaparecerá de debaixo do tapete de uma forma ou de outra. Quebrar este paradigma, de que certos sentimentos não são bons ou não são permitidos, pode às vezes ser difícil pela forma como nós adultos fomos criados na infância. Mas em minha vivência como mãe percebi que resignificar minhas percepções sobre a raiva e outros fortes sentimentos negativos foi um passo necessário e importante trazer mais compreensão e harmonia na relação com meus filhos. A grande sacada está em como lidamos com estas emoções, evitando justamente ao máximo de as esconder, reprimir ou controlar.

Pra falar sobre a segunda lição eu quero te fazer uma pergunta: quando você está bravo, com a cabeça quente, você consegue resolver algum conflito com calma, respeito e consideração? Não sei vocês, mas quando EU sinto raiva, eu tenho dificuldade par falar num tom adequado ou para pensar no que dizer sem ferir o outro. Cada pessoa vivencia a raiva de um jeito subjetivo e peculiar, mas numa coisa podemos concordar: é muito difícil ser empático e respeitoso quando a sentimos. Quando li o livro “Pais Conscientes, Crianças Felizes” uma chave virou dentro de mim. A co-autora Myla Kabat-Zinn escreve que no meio da tempestade é oportunidade parar por um momento, dar uma respirada e perceber que não tem que resolver o que quer que seja naquele exato momento. Pra mim esta revelação gerou uma profunda mudança no meu padrão de comportamento. A sociedade cobra que de nós pais disciplinem e controlemos nossos filhos no ATO, no exato momento em que a criança apresenta um comportamento entre aspas “indesejado”. A verdade é que quando não nos sentimos prontos, nós não devemos lidar com a raiva dos nossos filhos, pois primeiro temos que lidar com a nossa. Eu mesma preciso tirar alguns instantes para respirar e voltar ao bom senso. Nós vamos sim, colocar limites, disciplinar e educar os nossos filhos, mas nós podemos escolher não fazer isto no calor do momento, na irracionalidade. O aconselhado é se afastar alguns segundos, minutos, o tempo que for necessário, até se recompor.

E você pode falar isso ao seu filho dizendo “estou brava demais para conversar com você sobre isso agora. Eu não quero brigar então escolho primeiro me acalmar. Quando eu estiver pronta e você também, falaremos sobre isso.” Eu sempre gosto de dizer aos meus filhos que vou ali respirar. Eu vejo que há dois benefícios em ter esta atitude: primeiro que você estará evitando extrapolar e perder a paciência de vez com seu filho e segundo que estará modelando o comportamento que é expressão de inteligência emocional, ou seja, o gerenciamento consciente de suas próprias emoções. Descubra formas para conseguir se acalmar e se regular. Por meio do seu exemplo, seu filho aprenderá que quando estamos com raiva não devemos estourar com os outros. Podemos sim, sentir raiva, mas devemos nos regular para resolver a situação e não agravá-la.

Depois de você conseguir se acalmar ajude seu filho a se acalmar também. Cheque se ele ainda está com raiva ou se está pronto para solucionar o problema e conversar com você. Talvez ele também precise de um pouquinho de espaço e tempo pra se acalmar. Se ele ainda estiver zangado, você pode ajuda-lo a se regular dando um nome àquele sentimento. Inclusive se você quiser aprender mais sobre a técnica de nomear sentimentos, clique no banner que aparecerá logo aqui em cima. Depois de nomear o sentimento, mostre empatia genuína de forma que seu filho realmente se sinta compreendido e comece a se desarmar. Quando ele perceber que você realmente se interessa pelo o que ele sentiu e está verdadeiramente disposto a ouvir o lado dele da história, ele conseguirá colaborar com você num diálogo mais amoroso e pacífico. Agora sim, vocês conseguirão encontrar uma solução para o conflito e conversar como fazer melhor da próxima vez. Imagine nos benefícios a longo prazo se nós conseguirmos substituir reações agressivas, punições físicas, feridas emocionais por conversas mais calmas, acolhedoras e respeitosas simplesmente porque decidimos resolver um conflito não no calor da emoção, mas depois dos ânimos se acalmarem.

Tente, no seu dia-a-dia, refletir o que a raiva do seu filho causa em você e como isto te afeta na hora de um conflito. Estas reflexões poderão te ajudar a compreender melhor a raiz do seu desconforto e isso te levará a aceitar melhor quando seu filho expressar fortes sentimentos negativos. E num próximo conflito em que você se sentir emocionalmente sobrecarregado, tome a decisão consciente de pausar, respirar, se acalmar para lidar com o problema quando estiver emocionalmente estável. Desta forma, conseguirá ajudar o seu filho a se regular também. É como nos ensina a tripulação de um avião: coloque primeiro a máscara de oxigênio em você e depois auxilie a sua criança.

Lembre-se, nós é que somos os adultos nesta situação. E nós é que temos maturidade para ESCOLHER como lidar com aquele conflito. Fiz esse vídeo com o meu desejo de que você um dia tenha o mesmo prazer que eu tenho de ouvir meu filho, quando está zangado, me dizer “mamãe, to bravo. Quero respirar.”



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